Porque os mendigos conversam sozinhos

O ônibus parou no ponto e eu vi um mendigo falando sozinho.

Seu nome era Adelmo e ele já havia sido muito rico. Talvez não tão rico, ele apenas levava uma vida confortável. Tinha um emprego de trabalho manual (marceneiro talvez), esposa, filhos e uma casa simples daquelas que o conjunto de xícaras possui mais de 8 anos e 5 unidades.

Você pode não saber, mas o universo existe por causa do homem. Cientistas não costumam acreditar nisso por conta de estudos da física quântica e todo aquele papo do Big Bang. Mas mesmo o Big Bang fora decisão de um grupo de indivíduos. Num plano alheio ao nosso alcance, o homem é apenas uma responsabilidade trivial desses indivíduos – algo como lavar a louça: você precisa fazer, mas essa não é sua maior preocupação. A vida dos homens segue contínua e, quando há necessidade, esses indivíduos interferem. É o caso das entidades de Blackold.

Todo o Big Bang fora pensado sistematicamente, mas um dos cálculos simultâneos havia saído errado – Aratura assumiu a culpa, mas todos sabiam que Jorn havia sido a responsável. Junto com os humanos, o Big Bang gerou vários grupos de entidades. Isso não fazia parte do plano, mas era impossível voltar atrás.

Blackold era o líder de um desses grupos, o qual foi dado o direito de conviver com os humanos mesmo que alguns deles não pudessem ser vistos – somente o grupo de Neila foi proibido de se manifestar no sistema solar. Durante séculos, juntamente com suas entidades, Blackold prejudicou os humanos. Em alguns momentos ele os ajudava mas, se colocásssemos numa balança, suas ações negativas sempre falavam mais alto.

Foi num evento conhecido com Cárcere Negro que os indivíduos decidiram interferir. Apenas um oitavo do grupo de Blackold não foi dizimado, o restante foi extinguido da existência pelos indivíduos. O próprio Blackold teria sucumbido não fosse o sacrifício das entidades sobreviventes em prol do líder. O que antes era um grupo de entidades, havia se tornado um único velho decrépito chamado Blackold. Aquela corcunda, o andar torto e a baixa estatura jamais lembravam o antigo líder de casta que ele havia sido.

O Cárcere Negro havia sido uma curva simples do universo, um evento natural. Blackold jamais teve culpa e ninguém saberia disso. Injustiça era um conceito que não cabia para os indivíduos.  Blackold desejou acabar com sua existência, mas não tinha poderes pra isso. Arrependido das vezes em que prejudicou os humanos, nos milênios que se sucederam Blackold passou a ajudar homens que, assim como ele, haviam perdido tudo injustamente.

Eram homens como Adelmo.

A vida de Adelmo mudou tão repentinamente que ele já não fazia questão de lembrar tudo de ruim que havia acontecido, foi um trauma tão grande que ele mal conseguia se comunicar com outras pessoas. Sua vida era perambular pelas ruas, dormir em becos e revirar latas de lixo. Ele não precisava de casa, ele não precisava de dinheiro, ele não precisava de nada. Blackold o acompanhava e era o único que o ouvia.

Adelmo era o único que via Blackold. Ele e todos aqueles que injustamente viviam às margens da sociedade, Blackold os acompanhava.

Logo em seguida o ônibus retomou seu caminho e eu continuei lendo meu livro.

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