Relato de um técnico da 4ª divisão do futebol inglês

Sou técnico do pior time da Inglaterra, o York City. É um time nota 1.0 (numa classificação de 0 a 10.0), de forma que preciso fazer milagres com o péssimo orçamento do clube e virar do avesso pra ganhar com o elenco de baixo nível.

Uma das minhas estratégias pra conseguir dinheiro pro clube, é avançar nos torneios nacionais. Óbvio que com esse time fraco sempre sou eliminado, mas uma boa colocação chega a render três vezes o que o clube tem de grana disponível.

Pois bem, ontem eu cheguei à semi-final de um torneio. Um marco na história do clube. Continuar lendo Relato de um técnico da 4ª divisão do futebol inglês

Como eu passei no vestibular (pela segunda vez)

Hoje saiu a lista de aprovados. Meu segundo vestibular na vida, o segundo que passo.

Em 2003, no primeiro, me tranquei em casa por uma semana e estudei tudo que podia (menos química e física, nunca me dei bem nessas matérias). No dia da prova, o objetivo era não zerar nenhuma disciplina. A estratégia? Chutei tudo c em Física, tudo d em Química, gabaritei História, errei só uma questão em Português e Geografia, e fui bem na redação. Passei.

Esse ano foi diferente, apenas fiz o ENEM e me inscrevi no SISU. Não estudei nada e não chutei nada, tentei resolver todas as questões. Passei.

O que me surpreendeu é que se eu tivesse estudado e tirado 800 (ao invés dos 695 que tirei) estaria apto a entrar em medicina, direito ou qualquer outro curso mais concorrido.

Venhamos e convenhamos, quem não estudou e tirou 695, tira 800 com uma mãos nas costas e um pouco de dedicação.

Tem um monte de desculpa. Uns diriam que tive sorte, outros que o sistema educacional brasileiro é um lixo, outros que é fácil, outros que o curso não era concorrido, outros que foi Deus.

Eu diria que foi meu pai. Continuar lendo Como eu passei no vestibular (pela segunda vez)

A felicidade é uma habilidade que precisa ser desenvolvida

“Fazemos esforços consideráveis em um sem-número de direções, empreendendo incontáveis projetos. […] Mas se nos ocorre pensar: “Eu deveria tentar desenvolver o altruísmo, a paciência, a humildade”, hesitamos, e dizemos a nós mesmos que essas qualidades virão naturalmente a longo prazo, ou que não são grande coisa e que, até agora, passamos perfeitamente bem sem elas.

Quem, sem esforços metódicos e determinados, pode interpretar Mozart? Certamente isso não é possível se ficamos martelando o teclado com dois dedos. A felicidade é um modo de ser, é uma habilidade, mas para desenvolvê-la é necessário aprendizado.”

–Matthieu Ricard

Copiado daqui (inclusive recomendo a leitura).

Por que só resolvem problemas quando a gente reclama?

Eu realmente não gosto de reclamar. Me sinto incomodado, como se eu não tivesse paciência ou capacidade pra resolver um problema. Aí sobra somente a reclamação, não gosto.

Pior: odeio reclamar quando é pra apontar um erro alheio.

Essa semana reclamei 3 vezes:

  1. Uma loja de móveis que mandou uma peça errada, ignorou meus emails de apelo e me tratou mal ao telefone.
  2. Uma loja de camisetas que atrasou a entrega em um mês.
  3. Minha imobiliária que não emitiu o boleto do aluguel.

As três situações foram iguais, nenhuma respondeu meus contatos pelos canais oficiais. A solução do problema só veio quando eu reclamei através de canais públicos (como o Twitter) ou direto com a diretoria. E detalhe: mesmo a resposta da reclamação só veio quando reclamei novamente.

Aí eu fiquei me perguntando:

  • Foi muito azar ter todos esses problemas no mesmo período?
  • Por que diabos as empresas não tem procedimentos descentes pra soluções de problemas?
  • Por que diabos só resolvem quando a gente reclama?

A impressão que tenho é que se você não ficar puto, você não é atendido. Se você não for estúpido, o problema não é resolvido.

Por que cara? Por que? Por que diabos só dão caráter de urgência quando sai fumaça da orelha do cliente?

Aliás, redes sociais têm virado isso: Procon. Ferramentas que deveriam ser usadas pelas empresas para relacionamento, estão virando plataformas de reclamação. E aí tão banalizando a reclamação (porque é só assim que resolvem) e aí todo mundo tá se estressando mais do que deveria.

Desculpa gente, to neuvosor. Odeio isso.

Update: tem mais no Meio Bit, seguindo a mesma vibe.

Porque os mendigos conversam sozinhos

O ônibus parou no ponto e eu vi um mendigo falando sozinho.

Seu nome era Adelmo e ele já havia sido muito rico. Talvez não tão rico, ele apenas levava uma vida confortável. Tinha um emprego de trabalho manual (marceneiro talvez), esposa, filhos e uma casa simples daquelas que o conjunto de xícaras possui mais de 8 anos e 5 unidades.

Você pode não saber, mas o universo existe por causa do homem. Cientistas não costumam acreditar nisso por conta de estudos da física quântica e todo aquele papo do Big Bang. Mas mesmo o Big Bang fora decisão de um grupo de indivíduos. Num plano alheio ao nosso alcance, o homem é apenas uma responsabilidade trivial desses indivíduos – algo como lavar a louça: você precisa fazer, mas essa não é sua maior preocupação. A vida dos homens segue contínua e, quando há necessidade, esses indivíduos interferem. É o caso das entidades de Blackold.

Todo o Big Bang fora pensado sistematicamente, mas um dos cálculos simultâneos havia saído errado – Aratura assumiu a culpa, mas todos sabiam que Jorn havia sido a responsável. Junto com os humanos, o Big Bang gerou vários grupos de entidades. Isso não fazia parte do plano, mas era impossível voltar atrás.

Blackold era o líder de um desses grupos, o qual foi dado o direito de conviver com os humanos mesmo que alguns deles não pudessem ser vistos – somente o grupo de Neila foi proibido de se manifestar no sistema solar. Durante séculos, juntamente com suas entidades, Blackold prejudicou os humanos. Em alguns momentos ele os ajudava mas, se colocásssemos numa balança, suas ações negativas sempre falavam mais alto.

Foi num evento conhecido com Cárcere Negro que os indivíduos decidiram interferir. Apenas um oitavo do grupo de Blackold não foi dizimado, o restante foi extinguido da existência pelos indivíduos. O próprio Blackold teria sucumbido não fosse o sacrifício das entidades sobreviventes em prol do líder. O que antes era um grupo de entidades, havia se tornado um único velho decrépito chamado Blackold. Aquela corcunda, o andar torto e a baixa estatura jamais lembravam o antigo líder de casta que ele havia sido.

O Cárcere Negro havia sido uma curva simples do universo, um evento natural. Blackold jamais teve culpa e ninguém saberia disso. Injustiça era um conceito que não cabia para os indivíduos.  Blackold desejou acabar com sua existência, mas não tinha poderes pra isso. Arrependido das vezes em que prejudicou os humanos, nos milênios que se sucederam Blackold passou a ajudar homens que, assim como ele, haviam perdido tudo injustamente.

Eram homens como Adelmo.

A vida de Adelmo mudou tão repentinamente que ele já não fazia questão de lembrar tudo de ruim que havia acontecido, foi um trauma tão grande que ele mal conseguia se comunicar com outras pessoas. Sua vida era perambular pelas ruas, dormir em becos e revirar latas de lixo. Ele não precisava de casa, ele não precisava de dinheiro, ele não precisava de nada. Blackold o acompanhava e era o único que o ouvia.

Adelmo era o único que via Blackold. Ele e todos aqueles que injustamente viviam às margens da sociedade, Blackold os acompanhava.

Logo em seguida o ônibus retomou seu caminho e eu continuei lendo meu livro.