Relato de um técnico da 4ª divisão do futebol inglês

Sou técnico do pior time da Inglaterra, o York City. É um time nota 1.0 (numa classificação de 0 a 10.0), de forma que preciso fazer milagres com o péssimo orçamento do clube e virar do avesso pra ganhar com o elenco de baixo nível.

Uma das minhas estratégias pra conseguir dinheiro pro clube, é avançar nos torneios nacionais. Óbvio que com esse time fraco sempre sou eliminado, mas uma boa colocação chega a render três vezes o que o clube tem de grana disponível.

Pois bem, ontem eu cheguei à semi-final de um torneio. Um marco na história do clube.

O adversário era um time nota 6.0 (isso até que não era nada demais), o problema é que na Inglaterra rolam vários campeonatos simultâneos e nosso time estava cansado, e com 3 jogadores contundidos.

Jogamos, seguramos até onde deu, mas aos 70 minutos de jogo tomamos um gol. Milagrosamente empatamos nos acréscimos, aos 92 minutos. Foi fazer o gol e o jogo acabar.

Isso gerou um novo problema: quando empata, tem uma segunda partida em três dias. O time já estava morto e tinha uma partida dois dias depois. Com mais essa, seriam três partidas em quatro dias. Nenhum time aguenta, muito menos o pior time da Inglaterra com parte principal do elenco no banco (além dos 3 em recuperação, nosso artilheiro estava cumprindo suspensão).

Não tinha o que fazer, precisávamos jogar. O jogador menos cansado do time disse estar com 70% da energia. Seguramos o primeiro tempo até onde deu e tivemos sucesso(?), terminou zero a zero.

O segundo tempo chegou a ser surreal, o time, esgotado fisicamente, não corria mais. Num lançamento do adversário, o goleiro precisou sair pra evitar o gol. E evitou, mas foi expulso (justo ele que estava numa excelente fase e sendo elogiado pela imprensa).

Coloquei o goleiro reserva, com uns 38 anos e prestes a se aposentar, no lugar de um meio-campo e seguimos o jogo. Não tomamos gol, o jogo foi pra prorrogação.

Aos 105 minutos de jogo os caras fizeram um gol, dos 105 aos 115 eles enfiaram três bolas na trave. Já era, faríamos história apenas por ter chego nas semi-finais.

Mas aí, aos 120 minutos, o destino: um escanteio. Último lance da partida, até o goleiro reserva veterano foi pra área.

Escanteio cobrado, o atacante cabeceou torto e a bola sobrou pra um zagueiro que não conseguiu dominar. Pensei: acabou. Foi quando o goleiro veterano deu uma esticadinha de perna e pegou a bola. Foi instinto, chutou (e goleiro não chuta bem). O chute pegou de raspão e a bola foi rolando devagarinho meio torta, passou por todo mundo que tava na área e entrou milimetricamente no canto direito. Um centímetro a menos e o outro goleiro teria defendido. Gol. Empatamos. Berrei. Puta que pariu. Gol.

A partida foi pros penaltis. O goleiro veterano defendeu um chute, o time deles errou outro e ganhamos. Ganhamos!

Estávamos na final. O goleiro saiu ovacionado pela torcida (na minha imaginação) e eu berrei que nem um louco.

Futebol, é emoção. E Fifa, tem dessas coisas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *